quinta-feira, 5 de maio de 2011

Poderiamos casar.

Poderiamos casar. Teríamos um apartamento, tomaríamos café as cinco da tarde, discordaríamos quanto a cor das cortinas, não arrumaríamos a cama diariamente, a geladeira seria repleta de congelados e coca-cola, o armário de porcárias, adiaríamos o despertador umas trinta vezes, sentaríamos na sala de pijama e pantufas, sairíamos para jantar em dia de chuva e chegariamos encharcados, nos beijariamos no meio de alguma frase, você pegaria no sono com a mão no meu cabelo e eu, escutando sua respiração. Eu riria sem motivo e você perguntaria porque, eu não responderia, saberíamos.



(Caio Fernando Abreu)

sábado, 23 de abril de 2011

Para Eliza.

Eliza, eu amava te ver sorrir e não era só por amar teu sorriso. Eu amava quando ficávamos caladas ao telefone, e não era por falta do que falar e sim apenas por vergonha de dizer. Eu amava o simples fato de saber que alguém em algum lugar do Mundo pensava intensamente em mim, como via a pensar em você. Amava o simples fato de ser sua e de ter-te.
Eu apreciei cada segundo, cada mensagem, cada ligação, cada pensamento, cada gesto, cada palavra dita e não dita. Eu apreciei todo o amor dado e todo amor que ainda pretendíamos dar uma a outra. Apreciei-te por inteiro, não houve uma parte sua não apreciada por mim.
Quis casar com você todos os dias, porque nada bastava, te queria cada vez mais e mais.
E depois que se foi, senti sua falta todos os dias, sem exceção. Pensei em ligar e implorar para que voltasse, mas não me atenderias. Não errei, não erramos, a vida errou conosco.
Eliza, você foi o amor da minha vida. Com toda certeza, amei-te além do amor. E não importa o quanto eu escreva, nada dirás com exatidão toda a falta que sinto.
Onde quer que você esteja, saiba que amo-te, e amor nunca acaba. E estou a esperar-te, minha pequena.
E se um dia voltar, pedir-te-ei que fique. E que nunca mais se vá.

(Emelly Dias Aloy)

quinta-feira, 24 de março de 2011

Não à conheceu. Não à notou.

Pela manhã, dois recém adultos se conhecem. Se esbarram ao sair de um café. Se olham. Ele encantado, embora sem graça. Ela assustada, olha como se já o conhecesse. Mas não é recíproco. Ela lembra de onde, mas age como se não. Parados há algum tempo, sem nada dizer, ele quase joga as palavras:
- Ora moça, me perdoe. Não foi intencional.
Ela responde quase que sem jeito:
- Mas é claro que não foi intencional. E olhe, a culpa foi toda minha que atravessei sem olhar para nada além do chão.
Continuam a se olhar, sem quase nada a dizer. Ou talvez eles nem quisessem mesmo dizer nada.
- Olha que estupidez a minha, nem reparei, seu suéter está banhado de café, rapaz. Moras longe?
- Do outro lado da cidade. Mas sem problemas.
Pensa um pouco antes de dizer, como quem decide se realmente é o certo. Mas logo diz:
- Moro à uma quadra e meia daqui. Vamos, lá tem umas roupas de Maurício. Sera que lhe servem? Ora, mas que cabeça a minha, mas é claro que lhe servem.
- Não quero incomoda-la.
Ela olha, como quem não quer gastar tempo com essa coisa de vamos ou não vamos. Pega o braço dele, caminham juntos. Ele esta quase a puxá-lo. Passam por alguns prédios, pessoas olham o desastre que lhe ocorreu no suéter, mas não ligam muito. Chegam ao prédio da moça. Entram, sobem pelo elevador. Aquele silêncio constante. Abre a porta do apartamento. Ele entra sem que ela precise o convidar. Se senta. Ela vai até o guarda-roupa, pega as tais roupas de Maurício. Entrega a ele.
- Tome, experimente. Tem um banheiro no corredor, segunda porta a esquerda.
- Que mal lhe pergunte, as roupas são de quem mesmo? Maurício?
- Isso. Maurício.
Ele a olha como se só essa resposta não lhe adiantasse. Quis perguntar quem era Maurício, mas achou que não lhe caberia a resposta. Então foi ao banheiro, se vestiu. Coube. Voltou a sala, tornou a sentar. Esperava a moça, que acabara de entrar mais uma vez no quarto. Olhou a sala como quem procurava algo que pudesse identificar qualquer coisa sobre ela, ou até mesmo de Maurício. Mas não achou.
Olhou um pouco mais. Viu uma moça um tanto que desajeitada em um dos porta-retratos. Da sala ele gritou:
- Quem é a moça da fotografia?
Ela demorou a responder. Talvez tenha pensado em mentir. E caminhando até a sala, respondeu:
- Costumava ser minha irmã.
- O que houvera?
Sabia que as perguntas não acabariam ali. Então se voltou a ele para responde-las.
- Morreu tragicamente há alguns meses.
- Num destes acidentes?
Olhou para baixo. Pensou em dizer que não queria falar sobre. Mas concluiu:
- Suicídio. (Respirou fundo, e completou) Do décimo sétimo andar.
Ele a olhava intensamente. Ás vezes desviava o olhar para a fotografia. Se arrependeu de ter começado o assunto. Não queria continuar a falar, mas já que estava tudo ao caos, continuou.
- E teve um motivo?
- Tu sabes, sempre tem. Imagina que coisa, foi o amor. (Sorriu ironicamente)
- Que mal lhe pergunte, onde ele estas agora?
- Bem aqui, fazendo-me perguntas.
Gelou. Sentiu uma estranha falta de ar. Tentou se lembrar de onde aquela menina viera para morrer por ele, ou por causa dele. Não lembrou. Sendo assim, ele sequer chegou a notá-la quando em vida. Não soube o que dizer diante de. Mas com muito esforço quase cuspiu as palavras:
- Eu sinto muito.
- Não. Você nunca sentiu nada. Esse foi o problema. - Disse a moça, abrindo a porta para que ele já pudesse se retirar.


Emelly Dias Aloy

segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

Partida sem volta.

Aconteceu em uma tarde de inverno, particularmente, foi a mais bonita que já pudera ver. Não esperava nada, aliás foi logo quando eu deixei de esperar. Sentei, levantei, depois tornei a sentar. Me curvei como quem revaza pedindo quase a implorar só para o tempo passar. E então o telefone tocou. Atendi.
- Sou eu. - uma voz triste me sussurrou.

Pensei em desligar e jamais tornar a atende-la, pensei em fingir não saber quem era, em ficar calada e ouvir o som da sua respiração. Pensei em tudo, mas não fiz nada do que pensei.

- Eu sei. - disse como quem não se importava.

- Eu sinto sua falta. - me falou como quem tinha dificuldade.

Isso eu não poderia responder. Desliguei. Pensei em retornar, mas não o fiz.

Sem demora, fui ao seu encontro. E quando me arrependi, já estava lá. Não aconteceu nada do que havia planejado. Não corri para teus braços, não a beijei. Eu sequer a toquei. Tentei ser extremamente fria e direta.

- Não tente olhar em meus olhos, e escute-me bem. Não torne a me ligar, nem a mandar mensagens. Não me faça ter que relembrar tudo. - disse olhando para o chão.

Ela me olhava como quem aprecia algo ou alguém. E mais uma vez sussurrou:

- Eu sinto sua falta.

Ela não poderia ter me deixado saber. Tive vontade de ficar, mas voltei a ter medo. Não poderia me permitir voltar a acreditar. Sim, eu queria que ela voltasse, e como. Mas permitir sua volta, seria me permitir voltar a sofrer.

- Você foi embora quando eu precisei de você. - libertei o que estava preso.

Segurei todas as lágrimas prestes a cair, e partir.

- Não me faça viver sem você. - foi a última coisa que ela pode dizer, mesmo já distante.

Pensei em voltar (quem é que não pensaria), mas me obriguei a continuar. Não olhei para trás, porque sabia que seria um jeito de ficar. E mesmo me doendo inteira, parti sem pretender voltar.


Emelly Dias Aloy

terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

Sophia, com PH.

- Ela era branca, branca como um tipo raro de neve e tinha a altura razoávelmente desejável. Seu cabelo era um liso escorrido, com os fios negros e curtos. Era quase um chanel, mas algo o diferenciava disso. Ela tinha os olhos saltados, parecia viver assustada e a cor eu nunca soube ao certo. Sabe a cor de um burro quando foge? Então, seus olhos tinham essa cor, indefinível.

Ela tinha uma aparência fria e gélida e também muito frágil. Frágil ao ponto que se certa pessoas não tomasse um devido cuidado, ela poderia partir ao meio. Ela me lembrava um tipo de boneca mais frágil de porcelana. E era tão bonita quanto.

Todas as vezes que eu à via, ela estava sentada num banco de uma praça deserta lendo um daqueles livros que ninguém nunca leria. E na verdade ela não o lia, só olhava para ele. Sua mente estava visívelmente distante. Mas distante quanto? Isso eu nunca soube.

Era uma cidade pequena, todos falavam sobre ela. Comentavam que apesar de tudo ela ainda tentava ser feliz. Mas apesar de tudo o que? Ela ainda sofrerá por um amor antigo?

Ao passar de um tempo, descobri que ela estava noiva de um bom rapaz, um casamento arranjado pela família da moça. Mas que na verdade, seu coração pertência à um escritor falido que já se mudará há algum tempo da cidade.

Então os livros desconhecidos que ela tentará ler eram dele? E sua mente se perdia em busca dele? E por que então ele hávia ido embora? Mais que coisa.

Ela era uma boa menina, coitada. Mas no fim? Há, no fim ela cometerá suicídio no dia do seu casamento.

Ninguém além de mim naquela pequena cidade se surpreendera. Mas por que? Já era de se esperar? Não houvera nenhuma outra saída então? Sabe, eu nunca soube responder nenhuma pergunta quando se tratara dela.

Mas que fique registrado: Ela era diferente de todas as outras. E chamava-se Sophia, com PH.

Emelly Dias Aloy

quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

Plano de Fuga.

FUGIR, essa palavra vem definindo minha vida há uns longos meses. Não sei dizer se já se tornou mania ou se ainda é medo. Acredito que seja um pouco dos dois.

O fato é que eu fujo toda vez que estou me apaixonando, fujo por medo de me entregar. Fujo para não sofrer. É, simplesmente fujo.

Minha vida tem sido fugir. Mas me parece que algo tem mudado, conheci uma garota e não consigo fugir dela. Não que ela tenha tirado meus medos, até porque eu os tenho perturbando minha mente o tempo todo.

Acontece que eu não consigo partir, não sem ela. Mas ela seria meu único motivo para partir. Não faz sentido leva-la comigo, se a intenção é fugir dela. E por não conseguir me desfazer - não sei se essa seria a palavra correta - ficarei por aqui mesmo. Esquecendo-me de fugir, nos braços dela. Aqui com ela. Até um próximo plano de fuga.

Emelly Dias Aloy