quinta-feira, 24 de março de 2011

Não à conheceu. Não à notou.

Pela manhã, dois recém adultos se conhecem. Se esbarram ao sair de um café. Se olham. Ele encantado, embora sem graça. Ela assustada, olha como se já o conhecesse. Mas não é recíproco. Ela lembra de onde, mas age como se não. Parados há algum tempo, sem nada dizer, ele quase joga as palavras:
- Ora moça, me perdoe. Não foi intencional.
Ela responde quase que sem jeito:
- Mas é claro que não foi intencional. E olhe, a culpa foi toda minha que atravessei sem olhar para nada além do chão.
Continuam a se olhar, sem quase nada a dizer. Ou talvez eles nem quisessem mesmo dizer nada.
- Olha que estupidez a minha, nem reparei, seu suéter está banhado de café, rapaz. Moras longe?
- Do outro lado da cidade. Mas sem problemas.
Pensa um pouco antes de dizer, como quem decide se realmente é o certo. Mas logo diz:
- Moro à uma quadra e meia daqui. Vamos, lá tem umas roupas de Maurício. Sera que lhe servem? Ora, mas que cabeça a minha, mas é claro que lhe servem.
- Não quero incomoda-la.
Ela olha, como quem não quer gastar tempo com essa coisa de vamos ou não vamos. Pega o braço dele, caminham juntos. Ele esta quase a puxá-lo. Passam por alguns prédios, pessoas olham o desastre que lhe ocorreu no suéter, mas não ligam muito. Chegam ao prédio da moça. Entram, sobem pelo elevador. Aquele silêncio constante. Abre a porta do apartamento. Ele entra sem que ela precise o convidar. Se senta. Ela vai até o guarda-roupa, pega as tais roupas de Maurício. Entrega a ele.
- Tome, experimente. Tem um banheiro no corredor, segunda porta a esquerda.
- Que mal lhe pergunte, as roupas são de quem mesmo? Maurício?
- Isso. Maurício.
Ele a olha como se só essa resposta não lhe adiantasse. Quis perguntar quem era Maurício, mas achou que não lhe caberia a resposta. Então foi ao banheiro, se vestiu. Coube. Voltou a sala, tornou a sentar. Esperava a moça, que acabara de entrar mais uma vez no quarto. Olhou a sala como quem procurava algo que pudesse identificar qualquer coisa sobre ela, ou até mesmo de Maurício. Mas não achou.
Olhou um pouco mais. Viu uma moça um tanto que desajeitada em um dos porta-retratos. Da sala ele gritou:
- Quem é a moça da fotografia?
Ela demorou a responder. Talvez tenha pensado em mentir. E caminhando até a sala, respondeu:
- Costumava ser minha irmã.
- O que houvera?
Sabia que as perguntas não acabariam ali. Então se voltou a ele para responde-las.
- Morreu tragicamente há alguns meses.
- Num destes acidentes?
Olhou para baixo. Pensou em dizer que não queria falar sobre. Mas concluiu:
- Suicídio. (Respirou fundo, e completou) Do décimo sétimo andar.
Ele a olhava intensamente. Ás vezes desviava o olhar para a fotografia. Se arrependeu de ter começado o assunto. Não queria continuar a falar, mas já que estava tudo ao caos, continuou.
- E teve um motivo?
- Tu sabes, sempre tem. Imagina que coisa, foi o amor. (Sorriu ironicamente)
- Que mal lhe pergunte, onde ele estas agora?
- Bem aqui, fazendo-me perguntas.
Gelou. Sentiu uma estranha falta de ar. Tentou se lembrar de onde aquela menina viera para morrer por ele, ou por causa dele. Não lembrou. Sendo assim, ele sequer chegou a notá-la quando em vida. Não soube o que dizer diante de. Mas com muito esforço quase cuspiu as palavras:
- Eu sinto muito.
- Não. Você nunca sentiu nada. Esse foi o problema. - Disse a moça, abrindo a porta para que ele já pudesse se retirar.


Emelly Dias Aloy

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